"Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.

(in Memorial do Convento)

Sábado, 24 de Março de 2012

Chocolate À Chuva


A manhã acordou chuvosa. Ainda que tímida, já se sentia o cheiro a terra molhada. E eu lembrei-me disto:

"- Tu parece que vives pelo nariz! Sentes tudo pelo nariz, até parece que tens faro. É esta casa que não cheira a gente, é a tua casa antiga que cheirava a ti e qualquer dia cheira a cão, é a casa da tia Magda que cheira a museu, é o homem das castanhas que cheira a Inverno...
- Então que queres tu. Os cegos conhecem as coisas pelos dedos, pelo tacto. Eu sei se gosto ou não das coisas sobretudo pelo cheiro.
- Estás a ver? É faro, como os cães!
- Talvez seja. Mas garanto-te que não há coisa melhor do que o cheiro do chocolate quente que a gente bebe ao chegar da escola, ou o cheiro do chão encerado, ou o cheiro do cabelo da Rosa quando acaba de tomar banho, ou o cheiro das manhãs de domingo ao acordarmos, ou o cheiro de um caderno novo quando a gente nele começa a escrever."

in "Lote 12 - 2º Frente", de Alice Vieira

Não tenho o "faro" da Mariana (Rosa, Minha Irmã Rosa; Lote 12 - 2º Frente; Chocolate À Chuva) mas aqui ficam alguns dos meus cheiros favoritos:

  • o cheiro do pão fresco, a estalar de tão quente;
  • o cheiro de um livro quando o abro pela primeira vez;
  • o cheiro a maresia;
  • o cheiro de um caderno por estrear;
  • o cheiro do meu bolo de chocolate;
  • o cheiro a relva cortada;
  • o cheiro da pele bronzeada;
  • e o cheiro a terra molhada;

E já agora, sabem como surge o cheiro a terra molhada? A Mãe Natureza tem uma  "pequena" ajuda: das Streptomyces para o ar...(leiam aqui)

Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

The Girl With The Dragon Tatto



As árvores despidas flanqueiam o percurso do automóvel. Na imensidão que o seu olhar alcança, ele só vê o silêncio do branco gélido. Ao fundo, a alva mansão ergue-se na sua própria imponência, indiferente ao Inverno agreste. Altivez manchada apenas pela dor de um mistério que os olhos do velho homem reflectem há quatro décadas. Ele devolve-lhe no olhar o compromisso de uma investigação. O frio sela o aperto de mão entre os dois homens, assombrados pela beleza das flores secas que se confundem já com a memória da jovem mulher.

O dragão conquista-lhe os traumas e as fraquezas. Corpo franzino num olhar forte, ela quer ser apenas mais um vulto na multidão. O preto agressivo das roupas camufla a dualidade que o seu ser encerra.

Cruzam-se sem aviso, na turbulência do ódio e do horror externos. Unidos na busca pela verdade e justiça. De súbito, são engolidos pela sua imensidão. A ilha é agora uma inquieta ameaça. Estreitando-se, a estrada é agora opressora e perigosa.




Domingo, 1 de Janeiro de 2012


Os ramos semi-nus pendem em direcção ao Douro, num lamento de folhas caídas. Um manto em tons de Outuno que já quase ninguém pisa. O riso das crianças  não anima mais os baloiços. Nem sobressalta os mais velhos em busca de descanso e cura termais. Os  cálidos repuxos estão agora imóveis. Num edifício fantasma, a tinta gasta assombra as pitorescas inscrições de tempos antigos.

Hoje, contudo, os nobres portões de ferro foram transpostos, num passeio a dois. As nossas gargalhadas ressoaram pelas férteis encostas. Num repente, um inesperado visitante de quatro patas juntou-se a nós, desejoso de brincadeira. Fizemos-lhe a vontade e ele correu em busca da esfarrapada bola, levantando terra e folhas pelo ar, num salutar desassossego. Nós despedimo-nos, preenchendo o olhar, a memória e o coração com a quietude e beleza deste recanto à beira-rio esquecido.

Domingo, 18 de Dezembro de 2011

A estranha história do Papa que deu à luz




No primeiro episódio de "The Borgias", após ser eleito Papa, Rodrigo Borgia (ou Papa Alexandre VI), num dos momentos mais engraçados e principalmente críticos da série, é sujeito ao testes et pendentes. Este exame pretendia determinar se o Papa tinha testículos, ou seja, se era de facto um homem. Se confirmado, ouvia-se anunciar solenemente:"Duos habet et bene pendentes"

Fiquei curiosa, quis saber a origem deste ritual. Ora bem, à boa maneira cristã, tal como o pecado original, a culpa é da mulher!

Segundo uma lenda medieval, no século IX, uma mulher inglesa, Joanna, ascendeu à posição de Papa! Muita culta e sábia, disfarçou-se de homem e conseguiu ingressar numa ordem religiosa, progredindo até ser eleita Papa. 

In AD 854, Lotharii 14, Joanna, a woman, 
succeeded Leo, and reigned 
two years, five months, and four days.

A lenda refere que o "Papa João" foi desmascarado em plena praça pública porque terá engravidado e, não sabendo o tempo da gestação, entrou em trabalho de parto durante uma procissão em Roma. Uma das versões diz que Joanna e o seu recém-nascido terão sido apedrejados até à morte, ali mesmo, pela multidão em fúria!


Ilustração do séc.XV, representando o Papa Joana a dar à luz

Considerada uma blasfémia, a partir daquele momento a Igreja ordenou que todos os Papas teriam que ser sujeitos ao testes et pendentes.

Quanto à história de Joanna, envolta em mistério, inclusivamente aproveitada pela Reforma Protestante como propaganda, caiu na obscuridade, não se podendo afirmar com certezas, até hoje, se é real ou apenas um mito.

Domingo, 11 de Dezembro de 2011

Shame


Cerca-te uma respiração pesada. Prende-te na confusão dos teus actos. Corres. Queres libertar-te. Esforço em vão. Quase sufocas na claustrofobia do inspirar e expirar. Apercebes-te, tarde de mais, que permaneces na devassidão. Continuas a procurar o calor anónimo dos corpos enrolados em fugaz prazer. Ao teu lado, uma mulher levanta-se. O teu suor prolonga-se-lhe na curva do ombro nu. Sentes-te vazio de emoções. Estás vazio de ti. Já não és nada mais que o instrumento descontrolado do desejo. A seda amarrotada dos lençóis já não consegue esconder a vergonha.



Trailer de Shame (2011)

Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

Montmartre

Uns salpicos de grisalho povoavam-lhe o farto cabelo. Falava um francês cerrado e amável, com um toque do Leste. Doces e inquisitivos, os seus olhos acompanhavam a fluidez das mãos. Um traço esguio, um outro subjectivo e, lentamente, contornos surgiam no branco do papel. Chamava-se Vladimir. A Jugoslávia era o seu lar, Montmartre o seu sustento. Montmartre, memória boémia do amor e da arte, era um ponto no mapa das minhas viagens. Ele deu-lhe um rosto. O meu.